quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

NOS TRAÇOS DA MEMÓRIA: A GRUTA DE LOURDES DA BETÂNIA EM LAGOA DO PIAUÍ E A CONSTRUÇÃO DA SUA IDENTIDADE RELIGIOSA.

Samila Sousa Catarino[1]( Universidade Estadual do Piauí)
Marcos Fernandes Lima² (Universidade Estadual do Piauí)


RESUMO:
O presente artigo busca discutir a Gruta de Lourdes da Betânia em Lagoa do Piauí como um local de memória religiosa. A grande peregrinação que atrai todos os anos milhares de fiéis para veneração a santa Nossa Senhora de Lourdes nos ajudam a perceber a importância da memória individual e coletiva para a construção da identidade local. Para compreendermos este universo religioso partiremos em busca dos “escombros das memórias”. A cada ano mais pessoas vão a Gruta, em especial no dia 11 de Fevereiro data na qual é comemorado a aparição da Santa e a edificação da Gruta. A pesquisa insere-se no estudo da história regional, visando contribuir com produções no âmbito da História das Religiosidades Populares, além de percebemos os avanços relativos à história cultural, especialmente no tocante a historiografia piauiense. A fim de compreendermos a construção da identidade religiosa iremos analisar algumas práticas devocionais que ocorrem na Gruta como: peregrinações, práticas ex-votivas e pagamento de promessas, essas relações de troca, que acontece entre o fiel e Nossa Senhora fazem parte da identidade local. A construção identitária da Gruta a partir das memórias nos possibilitará a ampliação do leque de possibilidades de estudos sobre religiosidade popular do Estado.

Palavra Chaves: Gruta de Lourdes. Ex- Votos. Religiosidade Popular. Memória. Identidade Religiosa.

ABSTRATC:

Word Keys: Grotto of Lourdes. Former - Votes. Popular religiosity. Memory. Religious identity.










 REFLEXÕES SOBRE A MEMÓRIA DA GRUTA DE LOURDES DA BETÂNIA.

É valido ressaltarmos o crescimento de produções acadêmicas que venham discutir e analisar a memória de grupos sociais. Essas memórias sejam elas individuais e/ou  coletivas nos ajudam a compreender a consolidação destes grupos sociais através da construção da identidade.
Ao longo dos anos o que se percebe é uma ressignificação no estudo da memória. Porém o que podemos conceituar como memória? Qual a importância da memória para a compreensão de uma nação? Como os grupos identitários se legitimam através da memória? Este artigo propõe fazer algumas discussões e reflexões sobre a memória, tomando como objeto de análise a Gruta de Lourdes da Betânia em Lagoa do Piauí e a partir dessas análises, perceber a construção da identidade religiosa da cidade.
A Gruta de Lourdes da Betânia foi edificada no dia 11 de Fevereiro de 1948 na cidade de Lagoa do Piauí que fica a 50 km da Capital Teresina, esta foi construída após uma promessa feita por Maria Carmeli dos Santos Noronha, para Imaculada Conceição (Nossa Senhora de Lourdes). Este santuário está ganhando cada vez mais importância no aspecto religioso do Piauí, esse lugar de memória passa a se afirmar e reafirmar através das ações dos devotos e romeiros.
Após a construção da Gruta na cidade percebe-se que há 65 anos as pessoas fazem peregrinação a este local “sagrado”, e que com o passar dos anos o número de devotos é cada vez maior, principalmente na data de 11 de Fevereiro na qual é  comemorado o dia de Nossa Senhora de Lourdes e a data da construção da Gruta. Este espaço se constitui como um local de memória e história, a partir dos estudos verificou-se o fortalecimento das práticas religiosas populares no Piauí, como a construção de uma identidade religiosa singular e própria na região.
No que concerne ao estudo da memória à história enquanto disciplina, passou a “mergulhar” nas definições , nas problemáticas do que se pensa sobre memória. Os historiadores como: Le Goff, Marc Bloch, Pierre Nora, Halbwachs (sociólogo) entre vários outros, procuram desvendar os “segredos da memória” no seu sentido mais amplo, buscando caracterizá -la nos aspectos teóricos e metodológicos, funcionando assim como suporte para a compreensão dos fatos históricos. Para Revel o historiador é um  dos mais preocupados em analises da memória:

[...] se há uma disciplina em que esta preocupação com a memória tornou-se evidente, até tornar-se às vezes obsessiva há uma geração, é a história, tanto por meio de programas de pesquisa empíricos quanto na reivindicação de um “dever de memória”, que se tornou um tema constante em nossas sociedades e que não deixou de afetar também os historiadores profissionais.[2]

A maioria dos profissionais buscou incessantemente esse conhecer a memória, ainda hoje se veem discípulos e discípulas daqueles que passaram a tratar a memória como objeto de estudo para compreensão da sociedade. Peter Burker alerta para os perigos da memória.“ As memórias são maleáveis, e é necessário compreender como são concretizadas, e por quem, assim como os limites dessa maleabilidade.” (BURKER , 1937, p. 73.)[3]  Com isso é necessário um cuidado do historiador, sendo que é preciso tentar se esquivar das armadilhas da memória. Através de um rigor teórico e metodológico é preciso compreender os grupos sociais nas quais estão sendo construídas e reconstruídas essas memórias.
O próprio conceito de memória é algo difícil de definir apesar de todas as particularidades em sua definição nas diferentes ciências, todos concordam que a memória é a capacidade de lembrar, isso levando em consideração a subjetividade do ser humano. A memória é construída no âmbito social, como afirma Halbwachs: “[...] em todos esses momentos, em todas essas circunstâncias, não posso dizer que estivesse sozinho, que estivesse refletindo sozinho, pois em pensamento eu me situava neste ou naquele grupo [...].”[4] A memória só ganha “corpo” quando ela está inserida em um grupo social, primeiro porque é no grupo social que essa memória passa a ser legitimada e em segundo lugar por mais individual que uma memória aparenta ser esta foi construída enquanto participante de um grupo social (no âmbito familiar, na escola, na rua, na igreja e etc).
Tomando por base todas essas analises e reflexões defino a memória como: a capacidade de lembrar-se de fatos ou fragmentos de acontecimentos que de certa forma foram significativos para a que os mantivesse guardados, que através de ações cerebrais podem ser acessados de forma espontânea (quando algum lugar ou objeto me faz lembrar), ou de forma induzida que é quando eu procuro me induzir a recordar tal acontecimento. Esse ganha legitimidade no grupo social em que eu estou inserido.
A partir dessas definições de memória procurou-se analisar a importância da memória individual e coletiva da Gruta de Lourdes da Betânia e como essas ajudam a construir uma identidade social-religiosa do santuário. Através das entrevistas foi possível identificar a importância da memória para a continuidade da tradição de devoção que ocorre na Gruta de Lourdes. É uma memória que perpassa os anos, sendo passada de pai para filho que acabam por ajudar na consolidação desse “lugar de memória”. A senhora Antônia Pereira de Carvalho relatou-nos há quanto tempo visita a Gruta. “Eu visito a mais de vinte anos. Minha mãe vinha à Gruta, meu primo.”[5] Assim como a senhora Antônia várias pessoas relataram que passaram a vir a Gruta de Lourdes da Betânia com familiares, principalmente com a mãe. Esses relatos individuais acabam por construir a memória coletiva do santuário. Isso porque essas memórias apresentam características em comum como a citada anteriormente.
A noção de se pensar a memória presente na Gruta de Lourdes nos ajudam a mergulhar nesse universo subjetivo de cada indivíduo. Para Halbwachs

[...] a memória coletiva tira sua força e duração por ter como base um conjunto de pessoas, são indivíduos que se lembram, enquanto integrantes do grupo. Desta massa de lembranças comuns, umas apoiadas nas outras, não são as mesmas que aparecerão com maior intensidade a cada um deles. De bom grado, diríamos que cada memória individual é um ponto de vista sobre a memória coletiva, que este ponto de vista muda segundo o lugar que ali ocupo e que esse mesmo lugar muda segundo as relações que mantenho com os outros ambientes.[6]

            Para a compreensão da “realidade” dos devotos de Nossa Senhora de Lourdes partirmos do pressuposto de que a memória pode ser exemplificada através da equação: 


Memória individual + Memória coletiva = Identidade
           
Compreendemos que na memória coletiva, além de ser o acúmulo  de suas memórias individuais, há também outros discursos que interferem na construção dessa memória, como influência do Estado, das Religiões, dos Códigos de Morais e Posturas e etc. Como Halbwachs afirmou as memórias se apoiam uma nas outras e no espaço coletivo ganham sua legitimidade, assim podemos dizer da memória coletiva da Gruta de Lourdes da Betânia, essas memórias individuais de devotos que relatam sobre suas experiências de fé, de peregrinação, de graças alcançadas por intermédio de Nossa Senhora de Lourdes acabam por ganhar mais significado quando eles se encontram na Gruta que além de ser um espaço sagrado é um espaço de transmissão de memória e sociabilidade.
Essa simples equação nos ajuda a perceber como funciona a construção dessa identidade religiosa, de um santuário que está a cada dia se tornando um dos mais significativos do Piauí assim como em Santa Cruz dos Milagres[7].
Mas qual a importância da memória para uma nação? Bem de fato a memória ajuda na contribuição  para a construção de uma identidade nacional, a própria seleção do que se torna uma memória nacional é bastante influenciada pelo Estado. E isso muitas vezes se torna perigoso, pois, na maioria das vezes o que se é lembrado pela grande maioria pode não fazer parte do reconhecimento identitário, podemos dizer: eu posso lembrar-me de acontecimentos que para mim não são tão significativos, porém com as pressões externas, seja do poder nacional, ou da mídia, essas lembranças, essas memórias passam a ser minha por uma imposição. Com isso podemos analisar a memória como um local de disputas, de poder. E por ser uma relação de poder ela pode  ser manipulável, para Le Goff:

Tornar-se senhores da memória e do esquecimento é uma das grandes preocupações das classes, dos grupos, dos indivíduos que dominaram e dominam as sociedades históricas. Os esquecimentos e os silêncios da história são revelados destes mecanismos de manipulação da memória coletiva. O estudo da memória social é um dos meios fundamentais de abordar os problemas do tempo e da história, relativamente aos quais a memória está ora em retraimento, ora em transbordamento.[8]

Essa manipulação da memória coletiva faz com que esses grupos fortaleçam as suas relações de disputas e poder, sendo a memória esse principal mecanismo. A memória que deve ser lembrada é a memória da nação soberana. Um exemplo claro vem a ser o atentado que aconteceu as Torres Gêmeas de World Trade Center em 2001 nos Estados Unidos, depois desse atentado, os estadunidenses passaram a ser cada vez mais memorialistas, construíram memoriais as pessoas que foram mortas e essa memória de certa forma se sobressai a memórias de outra nações, tendo em vista que quando se pensa no ano de 2001 especificamente no mês de setembro, se lembra do atentado, se pensa nos Estados Unidos, se lembra da cassada  ao possível “terrorista” Osama Bin Laden. A memória, ela se sobrepõe sobre outra, ela assume um status de poder, do que deve ou não ser lembrado.  
            Essa sobreposição da memória é legitimada através dos arquivos que funcionam muitas vezes como guardiões da memória de uma nação. Para Knauss “como em outros lugares de memória, os arquivos são uma construção das formas contemporânea de promoção da memória, registro de que nós vivemos em outro tempo distinto de anteriores.”[9] (KNAUSS, 2009.).
Porém não devemos tomar tais arquivos como verdade absoluta, pois esses documentos são sujeitos às falhas e ainda mais a falsificações. Nisso lembro-me de um exemplo bastante esclarecedor no livro de Terence Ranger e Eric Hobsbawm em sua obra: A Invenção das Tradições. Ao longo do segundo capítulo o autor Trevor Hoper faz uma reflexão sobre a utilização dos Kilts[10], o fato é que durante essa análise de quando começou a usar os kilts e outras vestimentas tipicamente escocesas como o tartan, aparecem pessoas com alguns documentos para comprovar suas versões sobre essas vestimentas, porém descobre-se que esses documentos são uma fraude, os responsáveis por essa invenção da tradição das Altas Montnhas era James Macpherson e os irmãos Stuarts que criaram histórias fantasiosas e o autor conclui com o seguinte pensamento:

Este artigo começou com uma referência a James Macpherson. Termina com os Sobieski Stuarts. Existem várias semelhanças entre estes inventores das tradições montanhesas. Ambos idealizaram uma Idade de Ouro no passado das Terras Altas célticas. Ambos declararam que possuíam provas documentais. Ambos criaram fantasmas literários, forjaram textos e falsificaram a história para sustentarem suas ideias. [...][11]

Neste exemplo visualizamos mais uma vez essa sobreposição da memória por conta de discursos, documentos que muitas vezes são falsificadas, da própria memória fantasiosa de várias pessoas. Como muitas vezes os historiadores legitimam seus discursos através dos documentos, se deve verificar se tais documentos são verídicos para que não possamos reproduzir uma história fantasiosa. Nesse período na qual Hoper relata vários estudiosos da época foram enganados.

LEGITIMAÇÃO DA IDENTIDADE ATRAVÉS DA MEMÓRIA

Como os grupos identitários se legitimam através da memória? Os grupos que participam das manifestações religiosas da Gruta de Lourdes da Betânia conseguem se afirmar e reafirma através de suas práticas religiosas, que muitas vezem assumem características singulares a outros locais religiosos. A Gruta de Lourdes é um local de passagem de vários motoristas e viajantes, isso por encontrar-se as margens da BR-316, muitos motoristas e viajantes acabaram por se tornarem devotos, muitos fazem promessas e atingem  sua graça, com isso eles prometem pararem toda vez que passarem na frente da Gruta, nas margens da BR. Isso é uma característica bastante específica da Gruta de Lourdes da Betânia. 
Outra particularidade do santuário vem a ser a questão do que é colocado como ex- votos. Sabe-se que a prática de ex-votos (objetos- testemunhos) é uma prática bastante comum, especialmente na região do Nordeste. Esses objetos são oferecidos muitas vezes quando o devoto está passando por algum momento de dificuldade, tentando superar esse momento difícil o devoto se apega a Nossa Senhora de Lourdes, a fim de conseguir superar tal dificuldade. Na Gruta de Lourdes muitos objetos são depositados como: fios de cabelo, roupas sujas de sangue, esboço feitos de madeira de braços, pernas, cabeças e etc. Esses objetos se aglomeram na Sala de Milagres, no dia 10 de Fevereiro um dia antes da grande Missa, ocorre uma corrida de cavalos, uma vaquejada que é promovida pela família da senhora que edificou a Gruta. Depois da Vaquejada é possível perceber na Sala de Milagres ex-votos de troféus dessas vaquejadas, muitos desses vaqueiros passaram a se apegar a Nossa Senhora de Lourdes para conseguirem êxito durante as disputas.
É interessante observarmos que esses objetos os chamados ex-votos que são expostos nas salas de milagres são uma forma de materialização da fé, é um testemunho de que alguém conseguiu alguma graça de um determinado santo (a), que nesse caso é Nossa Senhora de Lourdes. Para Filho (2006) “[...] a relação da promessa está firmada no plano material, das coisas, os motivo que fazem existir, não seria estranho às práticas de pagamento acontecer também, nesse plano”[12]. Apesar dessa noção de superioridade da Santa essa forma de pagamento acontece de maneira espiritual através de orações e rezas, mas também de forma social, humana, que é a confecção e colocação desses objetos- testemunhos (ex-votos), ricos em simbologias.
Outras práticas ajudam a legitimar esses vários grupos que participam da Gruta de Lourdes, como as várias famílias que se deslocam de outras cidades circunvizinhas como Monsenhor Gil e Lagoa do Piauí para irem a Gruta a pé, pagando promessas, são dezenas de pessoas, senhoras, crianças, grupos e mais grupos que se reúnem a fim de um único propósito: venerar Virgem Maria Nossa Senhora de Lourdes. Outros grupos vêm de excursões, especialmente no dia 11 de Fevereiros, pessoas se deslocam de suas casas e vão com outros romeiros para a Gruta, além dos milhares de carros de passeios que também vão para Betânia.
 Todas essas práticas citadas anteriormente vão ajudar na construção indentitária  do que vem a ser a Gruta de Lourdes da Betânia, entendemos aqui que o próprio conceito de identidade é algo complexo e sem uma definição única. Isso porque acreditamos que as mais diversas identidades estão entrando em convulsões e colapsos, não se sabe mais o que é identidade, não se reconhece mais a sua identidade, e isso é sério e grave. A pós-modernidade nos mostra essa fragilidade das identidades e ao mesmo tempo nos chama a atenção para a reflexão sobre esses riscos.
A discussão sobre as identidades é algo bastante complexo, para Hall “A ideia de que as identidades eram plenamente unificadas e coerentes e que agora se tornaram totalmente deslocadas é uma forma altamente simplista de contar a história do sujeito moderno.”[13] É importante se analisar que a própria concepção de homem ao longo dos períodos históricos foi mudando, e isso consequentemente gera uma nova concepção desse homem, que nesse momento atual está sendo visto como o homem moderno, o homem que muitas vezes vive no mundo das incertezas e que detém de várias identidades em um único ser.
Nesses vários grupos que visitam a Gruta de Lourdes da Betânia se constitui a identidade religiosa desse local. E é através dessa identidade que uma nação se reconhece. As práticas culturais muitas vezes funcionam como uma extensão da realidade dos grupos que participam dessas manifestações. Nesse sentido Leite e Martins fazem a seguinte análise: 

A manifestação cultural do grupo religioso passa a ser interpretada como um protesto simbólico, que muitas vezes não é visível, mas trata-se de estratégias de sobrevivência que as classes populares adotam dentro de uma sociedade que  lhes nega oportunidades de trabalho e seus direitos legítimos mais básicos.[14]  

            A religiosidade popular funciona muitas vezes como uma válvula de escape para os problemas diários, e é na fé que as pessoas procuram a solução de seus problemas. Isso é bastante perceptível na Gruta de Lourdes principalmente com as observações etnográficas e quando observamos o tipo de ex-votos que são colocados na Sala de Milagres. Muitas pessoas simples e humildes vão pedir pela cura de alguma doença, isso porque a medicina já não oferece mais esperanças de cura. Outras pessoas pedem por conseguirem uma casa, como se sabe o sonho da casa própria é algo desejado por muitos, e é um sonho não tão simples de ser realizado, apesar dos programas do Governo como Minha Casa Minha Vida, vemos que a grande parte da população que de fato precisa não é atendida, e muitas vezes esses programas são fraudulentos por conta dos acordos políticos feito durante o período eleitoral. Essas pessoas encontram em Nossa Senhora de Lourdes na Gruta da Betânia um refúgio, através da fé, e essas práticas citadas anteriormente vão tecendo a identidade religiosa estabelecida nesse lócus de religiosidade popular. Como Hall fala “as identidades nacionais não são coisas com as quais nós nascemos, mas são formadas e transformadas no interior da representação.” ( HALL.2011. p. 49) Eu tomo essa citação minimizando ainda mais a análise, de que não só as identidades nacionais, mas cito aqui especificamente as identidades locais, que se constrói e (re) constrói a partir da ação desses agente sociais de vários grupos, e na Gruta vemos essa heterogeneidade de grupos como: os motoristas, os idosos, os vaqueiros e vários outros, que juntos formam e transforma as identidades do santuário de Betânia.

CONCLUSÃO
            O presente artigo buscou fazer uma sucinta discussão sobre a memória e identidade religiosa que se constitui na Gruta de Lourdes da Betânia. Sucinta porque acreditamos essa temática ser bastante riquíssima e com várias sugestões de leituras e reflexões que o tempo não nos possibilitou realizar. Porém trouxemos o nosso ponto de vista sobre a temática, que ainda está em voga na acadêmica e atrai cada vez mais historiadores. No entanto advertimos pra os abismos e perigos da memória e que o próprio conceito de memória já se torna uma problemática que os vários pesquisadores não entram em consenso.
             Assim como a memória se constituí uma problemática e assume uma relação de poder,  também verificamos a complexidade ao analisar a identidade, procurou-se fazer um mapeamento para não definir, mas para se posicionar diante das diversas identidades presentes na Gruta de Lourdes da Betânia, a fim de perceber como esses grupos sociais constituem  a identidade religiosa do Santuário de Betânia. Para que fosse possível perceber essa construção, nos atentamos as análises das práticas devocionais na Gruta de Lourdes, foram essas práticas que nos possibilitaram traçar esse panorama de como se (re)constrói a Gruta de Lourdes da Betânia. 






REFERÊNCIAS

BURKER, Peter. História como Memória Social. In: Variedade de História Cultural. Rio de Janeiro: Civilizações Brasileiras, 2000. p. 70-80.

Entrevista de Antônia Pereira de Carvalho cedida a Samila Sousa Catarino no dia 11 de Fevereiro de 2013.

FILHO, Sebastião Faustino Pereira. Promessas: contrato individual e social com seres superiores. In: DOURADO, Jacqueline Lima. Folkcom do ex-voto à indústria dos milagres: a comunicação dos pagadores de promessas. Teresina: Halley, 2006. p. 34-41.

HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo. Centauro. 2006.

HALL, STUART.  A Identidade Cultural na Pós-Modernidade. Rio de Janeiro. DP&A, 2011

 LE GOFF, Jacques. Memória. In: História e Memória. Campinas-SP.  Editora da UNICAMP, 1990. p. 419-476.

MARTINS, José Clerton de Oliveira. LEITE, Liliana. Pagando Promessa, buscando esperança percepções sobre a romaria e religiosidade popular. In: DOURADO, Jacqueline Lima. Folkcom do ex-voto à indústria dos milagres: a comunicação dos pagadores de promessas. Teresina: Halley, 2006.p. 523-538.


KNAUSS, Paulo. Usos do passado e história do tempo presente: arquivos da repressão e conhecimento histórico. IN: Tempo presente e usos do passado. VARELLA, Flávia (orgs).  Editora FGV. p. 143-155

RANGER, Terence. HOBSBAWM, Eric. A Invenção das Tradições. São Paulo. Paz e Terra. 2012.

REVEL, Jacques. Maurice Halbwachs e os primeiros Annales. In: Proposições- Ensaios de História e Historiografia. Rio de Janeiro: EdUERJ,2009. p. 47-71.



[1] Graduanda em História pela Universidade Estadual do Piauí- Campus Clóvis Moura. Bolsista PIBIC-UESPI 2012-1013 com o Tema: A Gruta de Lourdes da Betânia em Lagoa do Piauí: edificação de fé, devoção e peregrinação. Endereço Eletrônico samilacatarino@gmail.com.
² Graduado em História pela Universidade federal do Piauí – UFPI. Especialista em História pela Universidade Estadual do Piauí – UESPI. Professor Substituto da Universidade Estadual do Piauí – UESPI. Endereço Eletrônico: marmarx16@hotmail.com.
[2] REVEL,Jacques. Maurice Halbwachs e os primeiros Annales. In: Proposições- Ensaios de História e Historiografia. Rio de Janeiro:EdUERJ,2009. p. 47-71.
[3] BURKER, Peter. História como Memória Social. In: Variedade de História Cultural. Rio de Janeiro: Civilizações Brasileiras, 2000. p. 70-80.
[4] HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo. Centauro. 2006.
[5] Entrevista de Antônia Pereira de Carvalho cedida a Samila Sousa Catarino no dia 11 de Fevereiro de 2013.
[6]  HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo. Centauro. 2006.
[7]  Santa Cruz dos Milagres é o maior santuário religioso do Piauí, onde milhares de devotos se deslocam de várias cidades e até outros Estados para o culto a Santa Cruz e a fonte de Água Milagrosa, esse santuário encontra-se há cerca de 168 km da capital Teresina.
[8]  LE GOFF, Jacques. Memória. In: História e Memória. Campinas-SP.  Editora da UNICAMP, 1990. p. 419-476.
[9]  KNAUSS, Paulo. Usos do passado e história do tempo presente: arquivos da repressão e conhecimento histórico. IN: Tempo presente e usos do passado. VARELLA, Flávia (orgs).  Editora FGV. p. 143-155
[10]  Vestimenta predominantemente escocesa é uma saia que é feita de lã, com estampa de xadrez, utilizada exclusivamente pelo sexo masculino. 
[11] RANGER, Terence. HOBSBAWM, Eric. A Invenção das Tradições. São Paulo. Paz e Terra. 2012.
[12]  FILHO, Sebastião Faustino Pereira. Promessas: contrato individual e social com seres superiores. In: DOURADO, Jacqueline Lima. Folkcom do ex-voto à indústria dos milagres: a comunicação dos pagadores de promessas. Teresina: Halley, 2006. p. 34-41.
[13]  HALL, STUART.  A Identidade Cultural na Pós-Modernidade. Rio de Janeiro. DP&A, 2011.
[14] MARTINS, José Clerton de Oliveira. LEITE, Liliana. Pagando Promessa, buscando esperança percepções sobre a romaria e religiosidade popular. In: DOURADO, Jacqueline Lima. Folkcom do ex-voto à indústria dos milagres: a comunicação dos pagadores de promessas. Teresina: Halley, 2006.p. 523-538.



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