quinta-feira, 4 de setembro de 2014

DO PÃO E CIRCO AO VOTO DE CABRESTO: A ILUSÃO DA DEMOCRACIA

Na Roma Antiga grande parte da população vivia em extrema miséria e pobreza, enquanto uma pequena parcela desfrutava-se das riquezas e luxos do Estado Romano. Diante da insatisfação da população romana por não ter direitos e nem ter o mínimo para sobrevivência o Estado Romano com medo de revoltas sociais que poderia colocar seu governo em colapso, criou a Política de Pão e Circo. Essa política tentava conter os ânimos do povo pobre, a fim de não por em risco o poder do Estado. Uma dessas medidas era a distribuição do trigo (pão), que era à base da alimentação familiar naquela época, com isso as pessoas estando alimentadas não iriam reivindicar seus direitos. Outra medida tomada para evitar as rebeliões fora a promoção de atividades de lazeres gratuitas para a população os chamados jogos (circo), que se constituíam em apresentações de gladiadores, lutas contra animais ferozes, que aconteciam no Coliseu. Essa Política criada pelo Estado serviu como forma de manipulação e aprisionamento da população pobre de Roma.
Assim como em Roma no Brasil aconteceu exemplos de manipulação da população pobre da sociedade a fim do não questionamento dos abusos do sistema político presente na época (república velha), como o voto de cabresto. Esse consistia da manipulação muitas vezes através da violência, e autoritarismo por parte dos coronéis as pessoas pobres. Isso aconteceu especialmente na região Nordeste do Brasil. Como no início do século XX as eleições eram ainda mais fáceis de fraudes, muitas pessoas pobres eram coagidas a votar em candidatos dos coronéis da cidade. Caso essas pessoas se recusassem a votar sofriam uma série de represálias além da violência física. Esses fazendeiros ou coronéis exerciam o poder total, nessas pequenas comunidades interioranas, manipulando e explorando a população pobre.

Atualmente mesmo com o discurso constitucional de que somos todos iguais, podemos afirmar que vivemos em uma política democrática? Não carregamos em nossas vivências resquícios da política de pão e circo e o voto de cabresto? O que vivenciamos na contemporaneidade é a ilusão da democracia, essa ilusão é manifestada através das políticas assistencialistas, ao povo pobre, onde pessoas vendem seu voto por um milheiro de tijolos, ou um tanque cheio de gasolina e etc. Que democracia é essa que nos obriga a votar em candidatos que simplesmente nos iludem com discursos bem elaborados, milimetricamente preparados para falar aquilo que desejamos ouvir, muitas vezes apelando para a fé das pessoas, falando que Deus é o seu incentivo, a sua base, sendo que quando estão no poder não fazem nada do que o próprio Deus prega de amor ao próximo e igualdade. O que é ser cidadão? Será que a prática de cidadania se restringe ao momento das eleições? Devemos perceber que depois de milhares de anos, e diversas conquistas principalmente no campo das políticas, ainda continuamos nas amarras da ilusão democrática, onde pouco tem muito e muito não tem quase nada. O que proponho nesse artigo é deixar mais perguntas do que respostas: Até quando vamos nos iludir com essa falsa democracia? Quando vamos nos libertar? O que fazer para que mudanças aconteçam? A minha proposta é refletir para que através da ação coletiva daqueles que não aguentam mais o desamparo do poder “público” possamos mudar os rumos da nossa história. 

Por: Samila Sousa Catarino 

sábado, 17 de maio de 2014

Hemeroteca Digital

Hemeroteca Digital



Compartilhando post sobre a Hemeroteca Digital de Lisboa, para aqueles interessados em ter acesso a jornais e revistas que estão sendo disponibilizados agora na HML.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Conhecendo as Belezas do meu Piauí: 
A Gruta de Lourdes da Betânia em Laga do Piauí: Um lugar de Memória, História e Patrimônio

A Gruta de Lourdes da Betânia é um dos  santuários mais visitados no Piauí. Ele encontra-se na cidade de Lagoa do Piauí que fica a 50 Quilômetros da capital Teresina. Este foi construído no ano de 1948 nas proximidades da atual cidade de Monsenhor Gil que na época era chamada Natal. A emancipação da cidade de Lagoa do Piauí aconteceu em 1995. Antes da emancipação da cidade de Lagoa do Piauí a Gruta já havia sido construída a 47 anos atrás. 
A Gruta de Lourdes foi construída pela senhora Maria Carmeli dos Santos Noronha, juntamente com o Frei Vitorino ( este celebrava suas missas em Natal, atual cidade de Monsehor Gil). Sendo a senhora Carmeli uma pessoa bastante devota de Imaculada Conceição, está fez uma promessa de construir uma Igreja. Em uma dessas missas em que a senhora Carmeli fora na comunidade de Natal, como era de costume ela convidou o padre para almoçar em sua propriedade. Após o almoço ele confessou que teria feito uma promessa a Virgem Maria, pois ele havia sobrevivido a uma guerra, e tinha prometido a construção de um santuário religioso, como ela também havia feito uma promessa desse tipo, ela disse que o ajudaria construir esse santuário, cedendo uma parte de suas terras. E assim foi feito em 1948 "nasce" a Gruta de Lourdes da Betânia. 
A Gruta de Lourdes foi inaugurada no dia 11 de Fevereiro, dia da aparição de Nossa Senhora de Lourdes na França. Nossa Senhora apareceu a uma menina chamada Bernardette de 14 anos que morava nos Pirineus na França. Ela era uma menina muito humilde, uma criança bastante religiosa. No dia 11 de Fevereiro de 1858 a Virgem aparece para a menina Bernardette, que havia ido procurar lenha com uma amiga e uma irmã, como ela sofria de problemas de saúde, não pode atravessar o rio Gave, ficando sozinha nas margens do rio, enquanto sua irmã e amiga iam a procura de lenha. Quando a criança estava sozinha, ela olhou para a rocha de Massabielle e viu uma aparição que era a Virgem Santíssima. Depois dessa aparição Nossa Senhora ainda mostrou-se 18 vezes para a criança Bernardette. 
A Gruta de Lourdes da Betânia é um local de memória e sociabilidade. No dia 11 de Fevereiro data em que é comemorado a aparição de Nossa Senhora de Lourdes, milhares de pessoas saem de várias cidades circunvizinhas e cidades mais longínquas a fim de venerar e pagar suas promessas.
A cada ano que passa o que se percebe é o aumento do número de fiéis e curiosos. Esses vão "pagar" suas promessas com a colocação de ex-votos, a prática de orações, o ato de caminhar vários quilômetros como penitência, são várias as práticas que encontramos neste santuário.  
Em cada canto da Gruta encontramos uma história e várias memórias. Esse espaço é marcado por fé e acaba se materializando através das ações de devotos. A Gruta de Lourdes da Betânia se tornou um Patrimônio Material pelo espaço físico construído, carregado de subjetividades e individualidades.
 O Piauí é marcado pela religiosidade popular, não só a Gruta de Lourdes, mas outros santuários como: Santa Cruz dos Milagres, Memorial a alma do motorista Gregório e outras devoções relacionados a mártires. Todas essas práticas devocionais, essa cultura popular religiosa é um resquício da colonização do Piauí, que é marcado pela forte presença dos jesuítas e a participação direta da Igreja Católica. 
Identificamos a Gruta de Lourdes da Betânia como um santuário de grande significação para o nosso Estado, que ajuda a constituir identidade tradicionalmente religiosa do povo piauense. Enquanto historiadora debruço-me na História da religiosidade popular do Piauí, com o objetivo de inserir a Gruta de Lourdes da Betânia na historiografia piauiense. 


                                            Fonte: Arquivo Pessoal da Pesquisadora; Entrada da Gruta de Lourdes em Lagoa do Piauí.
                                              Fonte: Arquivo Pessoal da Pesquisadora; Imagens das Santas Nossa Senhora de Lourdes e a Santa Bernardette.
                                               Fonte: Arquivo Pessoal da Pesquisadora; Terços e imagens nas salas de milagres.
                                      Fonte: Arquivo Pessoal da Pesquisadora; Vista da Gruta de Lourdes da Betânia
                                           Fonte: Arquivo Pessoal da Pesquisadora; Caminhada de devotos que saíram da cidade de Monsenhor Gil que fica cerca de 7 quilômetros da Gruta de Betânia, para o pagamento de promessas.
                                            Fonte: Arquivo Pessoal da Pesquisadora;  Missa Campal em frente a Gruta de Lourdes. 


Escrito por: Samila Sousa Catarino (graduanda do curso de licenciatura plena em História da Universidade Estadual do Piauí). 



segunda-feira, 14 de abril de 2014

Anchieta: santo ou vilão?


A recente canonização do jesuíta espanhol, José de Anchieta (1534-1597), está envolta em polêmica. Enquanto a Igreja católica enaltece o seu trabalho como missionário que catequizou os indígenas – sempre com amor e compreensão -, outros destacam a violência deste choque cultural entre os europeus e os nativos. Conhecido como o “apóstolo do Brasil”, Anchieta foi também um dos fundadores de São Paulo. Longe de querer entrar no aspecto religioso, acho que cabem algumas reflexões sobre a respeito desta questão.

O jesuíta espanhol rapidamente aprendeu a língua tupi (geral) e escreveu a sua primeira gramática, sempre buscando adentrar no imaginário indígena para catequizá-lo, ensinando as verdades da fé. Conheceu os hábitos dos nativos para se aproximar deles com mais eficiência. Explorando os aspectos exteriores da religião católica, escreveu atos para serem representados pelos índios. Usou a música e o teatro para propagar a sua religião – que ele acreditava ser a verdadeira.

Para alcançar seu objetivo, o trabalho missionário da Companhia de Jesus, muitas vezes, usava de expedientes considerados hoje pouco éticos, inclusive a violência física. Ora, sob o ponto de vista moderno, a catequização dos índios promovida naquela época é inconcebível. Para nós, espectadores do século XXI, impor uma nova religião a um povo, destruir seus traços culturais – seus ritos, crenças e práticas – é realmente inaceitável. O que muitos esquecem, entretanto, é que Anchieta era um homem do século XVI. Um soldado da Contrarreforma, como todo jesuíta de então.

Naqueles tempos, catequizar era sinônimo de “salvar almas”. Alfredo Bosi, em “Dialética da Colonização”, afirma que Anchieta foi nosso primeiro intelectual militante e que era guiado por uma inegável boa-fé de apóstolo. Isto, porém, não diminuiu o lado perverso de sua missão. “Como nas cruzadas e nas guerras santas, (na colonização) a religião e a moral coletiva degradam-se rápida e violentamente a pura ferramenta do poder; e o que se ganha em eficiência tática perde-se em qualidade no processo de humanização”, diz Bosi.

Para explicar aos índios as “verdades da fé”, os jesuítas precisavam destruir seus “maus hábitos”, que eram associados ao demônio.  Os alvos principais eram as práticas ligadas aos rituais mágicos, que eram ricos em beberagens, fumos, transes, danças, cantos e até antropofagia. Para isso, nos conta Bosi, “o método mais eficaz não tardou a ser descoberto: generalizar o medo, o horror, já tão vivo no índio, aos espíritos malignos, e estendê-lo a todas as entidades que se manifestassem nos transes. Enfim, demonizar toda a cerimônia que abrisse caminho para a volta aos mortos”. As cerimônias religiosas indígenas eram classificadas como atos malignos e bruxarias.

Outro aspecto que deveria ser combatido era a moral indígena, muito diferente da cristã. A poligamia e o incesto foram alvo dos ataques dos jesuítas. A raiz de todos os males seria a falta de orientação e hierarquia. Muitas vezes, era preciso usar a força para levá-los ao caminho certo. “Não estão sujeitos (os índios) a nenhum rei ou chefe e só têm alguma estima por aqueles que fizeram algum feito digno de homem forte. Por isso, frequentemente, quando os julgamos ganhos, recalcitram, porque não há quem os obrigue pela força a obedecer”, dizia o próprio Anchieta.

Enfim, nem herói, nem vilão, Anchieta foi um homem de seu tempo, que tinha uma missão e acreditava nela. Lembremos que, naquela época, religião, política e economia formavam um todo indivisível. Os aspectos econômicos da colonização não sobrepujavam os outros, portanto, a propagação da fé era tão importante quanto fortalecimento econômico ou político. Santo? Não creio. Mas, os católicos que julguem este mérito, afinal, trata-se mais de uma questão de fé que de História.

José de Anchieta, canonizado no dia 2 de abril de 2014.

Texto de Márcia Pinna Raspanti.
Fonte: http://saibahistoria.blogspot.com.br/
Nos rastros da História: 
análise da obra “História e Historiografia - Exercícios críticos”, de Jacques Revel 


Samila Sousa Catarino1


 A obra “História e Historiografia: exercícios críticos”, do historiador Jacques Revel, é 
composta por nove artigos que refletem sobre o debate historiográfico no decorrer do século 
XX, em especial nas últimas décadas. No capítulo inicial, intitulado: “Construção francesa do 
passado: uma perspectiva historiográfica”, Revel propõe uma discussão sobre a historiografia 
francesa desde os fins da Segunda Guerra Mundial. Através dessa incursão, o autor analisa a 
contribuição dos franceses para a produção historiográfica. De acordo com sua concepção 
reflexiva, o debate historiográfico mediante novas proposições paradigmáticas, adquiriu certa 
retomada antes da Guerra, com as contribuições de Bloch e Febvre, porém esse não seria o 
marco inicial para tais discussões, esse debate teria sido proposto bem antes de 1929, ano de 
ascensão dos Annales. 
 Em 1870, as Universidades Francesas estavam passando por certa “elaboração da 
política universitária”. Isso porque a França via-se derrotada face aos conflitos políticos e 
econômicos protagonizados contra o novo “Reich” da Alemanha, o que alimentou junto aos 
franceses um sentimento de “revanche”, que, dentre outras coisas, impulsionou um modo de 
se repensar o ensino universitário no país. A disciplina história teve um papel fundamental 
nesse processo, pois serviu para reanimar uma nação que tinha sido humilhada pelos Alemães. 
Diante desses acontecimentos, o saber histórico passou por renovações. Tal proposição foi 
gestada no fim do século XIX, visava romper com a literatura e ganhar o status de ciência, 
constituindo-se como um saber “metódico”. Outras ciências como: geografia, psicologia, 
economia e em especial a sociologia de Durkheim vivam também um processo de renovação. 
A mudança de paradigma proposta ao saber histórico subsidiou críticas por parte de 
outras frentes intelectuais. Os discípulos de Durkheim, por exemplo, criticavam a história 
mediante seu pleito em busca do lugar de ciência. Um deles, François Simiand, a criticava por 
argumentar que os acontecimentos factuais – campo de reflexão da história – não ofereceriam 
subsídios suficientes para arvorar ao status científico. As ponderações feitas por Simiand, e 
demais rivalidades, contribuíram com a proposta de Bloch e Febvre que absorveram tais 
críticas e propuseram uma nova forma de se pensar e escrever o conhecimento do passado. 

O segundo artigo: “Mentalidades: uma particularidade francesa? História de uma 
noção e de seus usos”, o autor, a princípio, se volta a discutir a etnologia da palavra 
mentalidade e a partir dessa projeção promove uma análise em torno de seu significado. Revel 
assevera que o termo passa a ser difundido nos “vocabulários científicos” das diversas 
ciências como: antropologia, psicologia, sociologia e história, no decorrer do século. Dentre 
essas ciências o autor destaca a psicologia como sendo de suma importância para o debate nas 
áreas humanas. No desenvolvimento da análise são citados vários exemplos de estudiosos 
que se debruçaram no estudo da psicologia para a compreensão do social, dentre eles 
podemos citar o historiador Lucien Febvre que procurava compreender sobre a natureza das 
representações coletivas, se apoiando no conceito de “psicologia histórica”. 
Revel volta às discussões associadas ao conceito e à aplicabilidade do termo ligado ao 
conhecimento social, retomando através de sua análise referências sobre os primeiros 
historiadores que desenvolveram uma abordagem histórica a partir do conceito “mentalidade”, 
e elencando os debates travados entre os campos da sociologia, psicologia e história, a 
respeito de sua apropriação, o que fez com que o conceito adquirisse amplitude em outras 
esferas intelectuais para além do seu domínio “mátrio” – França – apesar de ser afirmado 
como um gênero caracteristicamente francês. 
O artigo seguinte: “A instituição e o Social”, tem por abordagem os debates e os 
discursos produzidos pelos historiadores em torno do modelo e conceito de “instituição”. 
Revel procura demonstrar que quando se pensa na categoria instituição a primeira dificuldade 
apresentada vem a ser a definição da palavra. Seguindo esse pressuposto, o autor propõe em 
seu artigo três formas de compreensões conceituais. O primeiro visa caracterizar a instituição 
como uma dimensão jurídica e política. O segundo traz a instituição num conceito mais amplo 
que se refere ao funcionamento e organização de determinados domínios, respondendo assim 
a uma demanda coletiva da sociedade. A última concepção, mas não menos importante, 
procura compreender a instituição como “toda a forma de organização social”. 
A partir dessas conceituações, o autor constrói apontamentos em que relaciona a 
instituição e campo social. O primeiro conceito alimenta a lógica política quando se pensa 
nas questões institucionais, ligada à disciplina erudita. Durante muito tempo a historiografia 
prendeu-se a uma noção na qual considerou as instituições como locais que serviam para os 
arquivamentos de documentos, tornando assim sua compreensão restrita. Porém, outra 
compreensão para o termo, arrolando um sentido mais amplo, foi desenvolvida por Durkheim,da tradição sociológica moderna, sendo bastante difundida atualmente. Nesta baliza de 
pensamento elas seriam “criadoras de identidades” do núcleo social, isso porque os “fatos 
sociais são compreendidos como instituição”. 
Revel relembra que, há muito, a tradição de pensamento sociológica foi desprezada 
pelos estudiosos, restringindo assim ao estudo político-jurídico, mas com o passar dos anos a 
abordagem sócio-histórica foi adquirindo vários adeptos. Essa mudança é chamada pelo autor 
de “evolução historiográfica”, onde os estudiosos passaram a tratar as relações sociais como 
constructos das instituições. Outro ponto abordado pelo autor vem a ser o estudo da 
posopografia ou biografia coletiva que seria um método utilizado na história, o qual permite 
observar os grupos sociais em suas dinâmicas internas e seu relacionamento com outros 
grupos. 
O artigo “Michel de Certeau historiador: a instituição e seu contrário” vai desenvolver 
uma análise sobre a importância dos estudos de Certeau e o quanto este intelectual continua 
sendo amplamente estudado na academia por conta de suas pluralidades e perspectivas. Para 
iniciar essa análise, o Revel traz três momentos diferentes da obra de Certeau. O primeiro 
exemplo é uma obra em que Certeau tematiza sobre a espiritualidade jesuítica no início do 
século XVII. Jacques Revel procura dissertá-la demonstrando que a mesma se apresenta como 
uma não separação das experiências individuais e coletivas das instituições sociais. O segundo 
exemplo vem a serem os escritos que permeiam “A operação historiográfica”, discussão que 
ganhou força no terreno dos historiadores na contemporaneidade. De acordo com Revel a 
marca maior da operação historiográfica diz respeito à assertiva sobre a compreensão do 
oficio do historiador que ganha legitimidade a partir do lugar social na qual é produzido. O 
terceiro exemplo seria a imagem do próprio Certeau como um homem que gostava de viver 
em grupo, um homem plural. 
No artigo subsequente “Máquinas, estratégias e condutas: o que entendem os 
historiadores”, Revel objetiva analisar o pensamento de Michel de Foucault e como esse 
pensador influenciou os historiadores em suas produções intelectuais, assim como a sua 
recepção na historiografia. O autor mostra que Foucault preocupou-se em pensar a função do 
autor, reflexão que os historiadores não tinham atentado em fazer até àquele momento. Para 
Revel os textos de Foucault são interpretados de diversas formas muitas vezes o deformando 
por completo. Em um texto de Foucault é como se existissem vários Foucault’s, isso porque 
os leitores construíram várias imagens muitas vezes deturpadas sobre ele. O “incômodo” de 
Revel nesse sentido refere-se ao fato que diversos historiadores se encontram satisfeitos com 
determinadas leituras reducionistas que são feitas ao pensador francês. 
 Para aprofundar sua análise o autor traz três imagens dele. O primeiro Foucault foi 
“descoberto” nos anos 60, este se aproxima muito das propostas dos Annales, e, assim como 
os historiadores de sua geração, Foucault produzia uma história estrutural. O segundo 
Foucault é aquele que trouxe a tona o conceito de “estratégia”, conceito esse que fez bastante 
sucesso entre os historiadores durante os anos 70. O terceiro é o Foucault seria aquele 
preocupado com as “condutas”, onde voltou-se a pensar sobre as relações de poder. A partir 
dessas três imagens, Revel vai elaborando uma análise de algumas obras consideradas 
importantes (Historie de La sexualité, L’ Archéologie Du savoir e etc.), trazendo conceitos de 
fundamental importância para a compreensão da trajetória de Foucault e assim este era visto 
pelos historiadores. 
O artigo “Siegfried Kracauer e o mundo de baixo”, o Jacques Revel procura mostrar 
algumas reflexões feitas a partir da obra de Kracauer, onde este faz críticas sobre o campo da 
história. Primeiramente, Revel descreve uma pequena biografia do autor, assinalando 
inicialmente que este não era historiador e o seu interesse pela história aconteceu tardiamente, 
mas isso não o impediu de fazer um debate sobre o ofício de estudar o passado. Em sua obra 
History. The last things before the last. Kracauer traz algumas discussões sobre a 
cientificidade da história, historiadores, filmes e literatura. 
De acordo com Revel, a questão da cientificidade da história é discutida em sua obra 
maneira enfática. Seguindo esta proposta, Kracauer alimenta a compreensão da história como 
uma disciplina da ciência social. Ele também promove um debate filosófico sobre as 
propriedades epistemológicas da história apoiando-se nas ideias de Dilthey, tomando por base 
os argumentos produzidos desde o fim do século XIX sobre tal discussão. Para ele a história 
pode reivindicar-se enquanto ciência social, a partir do momento em que ocorrem fenômenos 
que podem ser analisados e compreendidos em suas relações a partir de determinadas 
regularidades. 
A segunda argumentação vem a ser do ofício dos historiadores, onde este trabalha com 
as fontes, que para ele são a “incompletude e a heterogeneidade das experiências humanas no 
tempo”. Revel relembra que Kracauer descrevera o modo como eram vistas as fontes no 
século XIX, sendo entendidas como detentoras de uma verdade absoluta e incontestável. 
Dando continuidade às suas reflexões, ele fala sobre literatura e filmes. Para ele, é importante 
se pensar no conceito de realidade. Segundo Revel, Kracauer faz uma analogia entre o 
literário e o historiográfico: o primeiro é livre de qualquer distinção realista, pois este vai 
compor a realidade a qual está inscrito, já o historiador não possui essa liberdade e é preso 
uma realidade limitada pelos indícios e fragmentos do passado que ganham personificação 
através das fontes. 
O sétimo artigo “Recursos Narrativos e Conhecimento Histórico”, o autor vai abordar 
algumas contribuições do historiador Lawrence Stone que investiu nos programas de história 
científica entre os anos de 1930 e 1960. Segundo Revel, era necessário reintroduzir no debate 
historiográfico as questões da história científica, os dois historiadores que se encarregaram de 
tal desafio foram Stone e Carlo Ginzburg. Ambos produziram trabalhos no qual pensavam 
sobre tal problemática, a fim de “resgatar” o problema da narrativa na abordagem 
historiográfica. 
Além desses autores Jacques Revel relembra a contribuição de outros pensadores 
sobre essa problemática. Podemos destacar a pessoal de Momigliano que se propôs a também 
pensar sobre as funções e os usos da narrativa, assim como Paul Ricoeur que aferiu um 
profundo debate sobre tal tema em muitos de seus trabalhos. O autor esclarece o quanto esse 
debate sobre a narrativa histórica já perdura por algum tempo, e que ainda se revela instável. 
Revel também nos mostra a mudança na concepção de história ao longo dos anos. Se 
antes a compreensão histórica era vista como um “repertório de exemplos e lições a serem 
seguidas”, ela passou por inúmeras transformações, o que o autor chamou de “virada capital 
da historiografia”. Para ele, essa mudança ocorreu principalmente por conta de dois fatores. O 
primeiro fator vem a ser a desqualificação da retórica como instrumento de conhecimento. O 
segundo é a própria mudança na concepção de história que alimentamos. Com todas essas 
transformações, alterou-se também o papel do historiador, sua relação com o objeto, e, 
concomitamente, exercício crítico das fontes históricas. 
No penúltimo texto, “A biografia como problema historiográfico”, como o titulo 
indica, é feita uma análise da utilização da biografia no campo historiográfico. A biografia 
como gênero amplamente utilizado nas produções historiográficas, possibilita uma variedade 
de públicos leitores, o que facilita a sua popularidade. Outro aspecto retratado por Revel vem 
a ser a conjuntura científica em torno da biografia. Nesse foco Revel toca nos debates 
referentes a duas questões que permeiam o tema: o “problema da biografia histórica” e “a 
biografia como problema”. Esse debate, para o autor, é “tão velho como a própria 
historiografia”. Para começar a discussão Revel compara os escritos de Aristóteles entre 
poesia e história. A poesia ou qualquer outra narrativa de ficção permitem a generalização, 
modelagem da experiência humana, já a história está submetida à experiência, e no caso da 
biografia essa experiência é voltada para o indivíduo. 
Com relação a uso da biografia como gênero historiográfico esta se encontra limitada 
a utilização das fontes. O ponto central do projeto biográfico é a importância de se analisar 
uma experiência singular e situá-la no contexto social, isso torna tal gênero pautado em 
complexidade. Para finalizar o autor propõe a utilização de três tipos de biografias: biografia 
serial (prosopografia), a biografia reconstruída em contexto e biografia reconstruída a partir 
de um texto (frequentemente utilizado na autobiografia). 
O último artigo, intitulado “O fardo da memória”, é dedicado a discutir a experiência 
histórica e a memória da França. Nele, Revel destaca três tipos de memórias. A primeira é a 
comemoração. No final do século XX a França teria celebrado muitos fatos importantes do 
passado francês (datas comemorativas). A segunda forma de memória é a patrimonialização a 
questão da consciência com o patrimônio, que aconteceu tanto no campo ideológico como nas 
construções de museus. A terceira forma é a produção da memória, a própria mudança na 
escrita da história, o que antes era restito aos grandes homens passou estar vinculado às 
memórias esquecidas, ou seja, historiadores e memorialistas começaram dar visibilidade às 
narrativas da história “vista de baixo”. Para Revel essas três formas estão interligadas e 
contribuem para se pensar a memória com relação à história francesa contemporânea 
A proposta feita por Jacques Revel à luz de tais perspectivas centra-se em torno de 
pensar a produção historiográfica na França, do século XX até a contemporaneidade. A partir 
desse foco, o autor procurar mostrar em sua obra os movimentos e as transformações sofridas 
no ambiente acadêmico, o hasteamento das disciplinas ao status de ciência, assim como a 
influência dos Annales na “construção” do conhecimento histórico, através da renovação da 
pesquisa histórica. 
Em sua plenitude, o livro revela um enriquecedor conteúdo, propondo ao leitor 
apontamentos e compreensão acerca das ciências sociais e suas contribuições no campo 
historiográfico. O Revel procurou explanar sua proposta, mostrando ao longo dos nove artigos 
a importância das ciências sociais e sua proximidade com a história. 

1
 Graduanda do Curso de Licenciatura Plena em História da Universidade Estadual do Piauí (UESPI), Campus Clóvis Moura. Vozes, Pretérito & Devir Ano I, Vol. I, Num.2 (2013)  Resenhas ISSN: 2317-1979.

Resenha Apresentada na Revista Eletrônica Vozes, Pretérito e Devir.

Referência:
REVEL, Jacques. História e Historiografia: exercícios críticos. Curitiba: Ed UFPR, 2010.
Recebido: 07 de junho de 2013
Aprovado: 22 de agosto de 2013