Nos rastros da História:
análise da obra “História e Historiografia - Exercícios críticos”, de Jacques Revel
Samila Sousa Catarino1
A obra “História e Historiografia: exercícios críticos”, do historiador Jacques Revel, é
composta por nove artigos que refletem sobre o debate historiográfico no decorrer do século
XX, em especial nas últimas décadas. No capítulo inicial, intitulado: “Construção francesa do
passado: uma perspectiva historiográfica”, Revel propõe uma discussão sobre a historiografia
francesa desde os fins da Segunda Guerra Mundial. Através dessa incursão, o autor analisa a
contribuição dos franceses para a produção historiográfica. De acordo com sua concepção
reflexiva, o debate historiográfico mediante novas proposições paradigmáticas, adquiriu certa
retomada antes da Guerra, com as contribuições de Bloch e Febvre, porém esse não seria o
marco inicial para tais discussões, esse debate teria sido proposto bem antes de 1929, ano de
ascensão dos Annales.
Em 1870, as Universidades Francesas estavam passando por certa “elaboração da
política universitária”. Isso porque a França via-se derrotada face aos conflitos políticos e
econômicos protagonizados contra o novo “Reich” da Alemanha, o que alimentou junto aos
franceses um sentimento de “revanche”, que, dentre outras coisas, impulsionou um modo de
se repensar o ensino universitário no país. A disciplina história teve um papel fundamental
nesse processo, pois serviu para reanimar uma nação que tinha sido humilhada pelos Alemães.
Diante desses acontecimentos, o saber histórico passou por renovações. Tal proposição foi
gestada no fim do século XIX, visava romper com a literatura e ganhar o status de ciência,
constituindo-se como um saber “metódico”. Outras ciências como: geografia, psicologia,
economia e em especial a sociologia de Durkheim vivam também um processo de renovação.
A mudança de paradigma proposta ao saber histórico subsidiou críticas por parte de
outras frentes intelectuais. Os discípulos de Durkheim, por exemplo, criticavam a história
mediante seu pleito em busca do lugar de ciência. Um deles, François Simiand, a criticava por
argumentar que os acontecimentos factuais – campo de reflexão da história – não ofereceriam
subsídios suficientes para arvorar ao status científico. As ponderações feitas por Simiand, e
demais rivalidades, contribuíram com a proposta de Bloch e Febvre que absorveram tais
críticas e propuseram uma nova forma de se pensar e escrever o conhecimento do passado.
O segundo artigo: “Mentalidades: uma particularidade francesa? História de uma
noção e de seus usos”, o autor, a princípio, se volta a discutir a etnologia da palavra
mentalidade e a partir dessa projeção promove uma análise em torno de seu significado. Revel
assevera que o termo passa a ser difundido nos “vocabulários científicos” das diversas
ciências como: antropologia, psicologia, sociologia e história, no decorrer do século. Dentre
essas ciências o autor destaca a psicologia como sendo de suma importância para o debate nas
áreas humanas. No desenvolvimento da análise são citados vários exemplos de estudiosos
que se debruçaram no estudo da psicologia para a compreensão do social, dentre eles
podemos citar o historiador Lucien Febvre que procurava compreender sobre a natureza das
representações coletivas, se apoiando no conceito de “psicologia histórica”.
Revel volta às discussões associadas ao conceito e à aplicabilidade do termo ligado ao
conhecimento social, retomando através de sua análise referências sobre os primeiros
historiadores que desenvolveram uma abordagem histórica a partir do conceito “mentalidade”,
e elencando os debates travados entre os campos da sociologia, psicologia e história, a
respeito de sua apropriação, o que fez com que o conceito adquirisse amplitude em outras
esferas intelectuais para além do seu domínio “mátrio” – França – apesar de ser afirmado
como um gênero caracteristicamente francês.
O artigo seguinte: “A instituição e o Social”, tem por abordagem os debates e os
discursos produzidos pelos historiadores em torno do modelo e conceito de “instituição”.
Revel procura demonstrar que quando se pensa na categoria instituição a primeira dificuldade
apresentada vem a ser a definição da palavra. Seguindo esse pressuposto, o autor propõe em
seu artigo três formas de compreensões conceituais. O primeiro visa caracterizar a instituição
como uma dimensão jurídica e política. O segundo traz a instituição num conceito mais amplo
que se refere ao funcionamento e organização de determinados domínios, respondendo assim
a uma demanda coletiva da sociedade. A última concepção, mas não menos importante,
procura compreender a instituição como “toda a forma de organização social”.
A partir dessas conceituações, o autor constrói apontamentos em que relaciona a
instituição e campo social. O primeiro conceito alimenta a lógica política quando se pensa
nas questões institucionais, ligada à disciplina erudita. Durante muito tempo a historiografia
prendeu-se a uma noção na qual considerou as instituições como locais que serviam para os
arquivamentos de documentos, tornando assim sua compreensão restrita. Porém, outra
compreensão para o termo, arrolando um sentido mais amplo, foi desenvolvida por Durkheim,da tradição sociológica moderna, sendo bastante difundida atualmente. Nesta baliza de
pensamento elas seriam “criadoras de identidades” do núcleo social, isso porque os “fatos
sociais são compreendidos como instituição”.
Revel relembra que, há muito, a tradição de pensamento sociológica foi desprezada
pelos estudiosos, restringindo assim ao estudo político-jurídico, mas com o passar dos anos a
abordagem sócio-histórica foi adquirindo vários adeptos. Essa mudança é chamada pelo autor
de “evolução historiográfica”, onde os estudiosos passaram a tratar as relações sociais como
constructos das instituições. Outro ponto abordado pelo autor vem a ser o estudo da
posopografia ou biografia coletiva que seria um método utilizado na história, o qual permite
observar os grupos sociais em suas dinâmicas internas e seu relacionamento com outros
grupos.
O artigo “Michel de Certeau historiador: a instituição e seu contrário” vai desenvolver
uma análise sobre a importância dos estudos de Certeau e o quanto este intelectual continua
sendo amplamente estudado na academia por conta de suas pluralidades e perspectivas. Para
iniciar essa análise, o Revel traz três momentos diferentes da obra de Certeau. O primeiro
exemplo é uma obra em que Certeau tematiza sobre a espiritualidade jesuítica no início do
século XVII. Jacques Revel procura dissertá-la demonstrando que a mesma se apresenta como
uma não separação das experiências individuais e coletivas das instituições sociais. O segundo
exemplo vem a serem os escritos que permeiam “A operação historiográfica”, discussão que
ganhou força no terreno dos historiadores na contemporaneidade. De acordo com Revel a
marca maior da operação historiográfica diz respeito à assertiva sobre a compreensão do
oficio do historiador que ganha legitimidade a partir do lugar social na qual é produzido. O
terceiro exemplo seria a imagem do próprio Certeau como um homem que gostava de viver
em grupo, um homem plural.
No artigo subsequente “Máquinas, estratégias e condutas: o que entendem os
historiadores”, Revel objetiva analisar o pensamento de Michel de Foucault e como esse
pensador influenciou os historiadores em suas produções intelectuais, assim como a sua
recepção na historiografia. O autor mostra que Foucault preocupou-se em pensar a função do
autor, reflexão que os historiadores não tinham atentado em fazer até àquele momento. Para
Revel os textos de Foucault são interpretados de diversas formas muitas vezes o deformando
por completo. Em um texto de Foucault é como se existissem vários Foucault’s, isso porque
os leitores construíram várias imagens muitas vezes deturpadas sobre ele. O “incômodo” de
Revel nesse sentido refere-se ao fato que diversos historiadores se encontram satisfeitos com
determinadas leituras reducionistas que são feitas ao pensador francês.
Para aprofundar sua análise o autor traz três imagens dele. O primeiro Foucault foi
“descoberto” nos anos 60, este se aproxima muito das propostas dos Annales, e, assim como
os historiadores de sua geração, Foucault produzia uma história estrutural. O segundo
Foucault é aquele que trouxe a tona o conceito de “estratégia”, conceito esse que fez bastante
sucesso entre os historiadores durante os anos 70. O terceiro é o Foucault seria aquele
preocupado com as “condutas”, onde voltou-se a pensar sobre as relações de poder. A partir
dessas três imagens, Revel vai elaborando uma análise de algumas obras consideradas
importantes (Historie de La sexualité, L’ Archéologie Du savoir e etc.), trazendo conceitos de
fundamental importância para a compreensão da trajetória de Foucault e assim este era visto
pelos historiadores.
O artigo “Siegfried Kracauer e o mundo de baixo”, o Jacques Revel procura mostrar
algumas reflexões feitas a partir da obra de Kracauer, onde este faz críticas sobre o campo da
história. Primeiramente, Revel descreve uma pequena biografia do autor, assinalando
inicialmente que este não era historiador e o seu interesse pela história aconteceu tardiamente,
mas isso não o impediu de fazer um debate sobre o ofício de estudar o passado. Em sua obra
History. The last things before the last. Kracauer traz algumas discussões sobre a
cientificidade da história, historiadores, filmes e literatura.
De acordo com Revel, a questão da cientificidade da história é discutida em sua obra
maneira enfática. Seguindo esta proposta, Kracauer alimenta a compreensão da história como
uma disciplina da ciência social. Ele também promove um debate filosófico sobre as
propriedades epistemológicas da história apoiando-se nas ideias de Dilthey, tomando por base
os argumentos produzidos desde o fim do século XIX sobre tal discussão. Para ele a história
pode reivindicar-se enquanto ciência social, a partir do momento em que ocorrem fenômenos
que podem ser analisados e compreendidos em suas relações a partir de determinadas
regularidades.
A segunda argumentação vem a ser do ofício dos historiadores, onde este trabalha com
as fontes, que para ele são a “incompletude e a heterogeneidade das experiências humanas no
tempo”. Revel relembra que Kracauer descrevera o modo como eram vistas as fontes no
século XIX, sendo entendidas como detentoras de uma verdade absoluta e incontestável.
Dando continuidade às suas reflexões, ele fala sobre literatura e filmes. Para ele, é importante
se pensar no conceito de realidade. Segundo Revel, Kracauer faz uma analogia entre o
literário e o historiográfico: o primeiro é livre de qualquer distinção realista, pois este vai
compor a realidade a qual está inscrito, já o historiador não possui essa liberdade e é preso
uma realidade limitada pelos indícios e fragmentos do passado que ganham personificação
através das fontes.
O sétimo artigo “Recursos Narrativos e Conhecimento Histórico”, o autor vai abordar
algumas contribuições do historiador Lawrence Stone que investiu nos programas de história
científica entre os anos de 1930 e 1960. Segundo Revel, era necessário reintroduzir no debate
historiográfico as questões da história científica, os dois historiadores que se encarregaram de
tal desafio foram Stone e Carlo Ginzburg. Ambos produziram trabalhos no qual pensavam
sobre tal problemática, a fim de “resgatar” o problema da narrativa na abordagem
historiográfica.
Além desses autores Jacques Revel relembra a contribuição de outros pensadores
sobre essa problemática. Podemos destacar a pessoal de Momigliano que se propôs a também
pensar sobre as funções e os usos da narrativa, assim como Paul Ricoeur que aferiu um
profundo debate sobre tal tema em muitos de seus trabalhos. O autor esclarece o quanto esse
debate sobre a narrativa histórica já perdura por algum tempo, e que ainda se revela instável.
Revel também nos mostra a mudança na concepção de história ao longo dos anos. Se
antes a compreensão histórica era vista como um “repertório de exemplos e lições a serem
seguidas”, ela passou por inúmeras transformações, o que o autor chamou de “virada capital
da historiografia”. Para ele, essa mudança ocorreu principalmente por conta de dois fatores. O
primeiro fator vem a ser a desqualificação da retórica como instrumento de conhecimento. O
segundo é a própria mudança na concepção de história que alimentamos. Com todas essas
transformações, alterou-se também o papel do historiador, sua relação com o objeto, e,
concomitamente, exercício crítico das fontes históricas.
No penúltimo texto, “A biografia como problema historiográfico”, como o titulo
indica, é feita uma análise da utilização da biografia no campo historiográfico. A biografia
como gênero amplamente utilizado nas produções historiográficas, possibilita uma variedade
de públicos leitores, o que facilita a sua popularidade. Outro aspecto retratado por Revel vem
a ser a conjuntura científica em torno da biografia. Nesse foco Revel toca nos debates
referentes a duas questões que permeiam o tema: o “problema da biografia histórica” e “a
biografia como problema”. Esse debate, para o autor, é “tão velho como a própria
historiografia”. Para começar a discussão Revel compara os escritos de Aristóteles entre
poesia e história. A poesia ou qualquer outra narrativa de ficção permitem a generalização,
modelagem da experiência humana, já a história está submetida à experiência, e no caso da
biografia essa experiência é voltada para o indivíduo.
Com relação a uso da biografia como gênero historiográfico esta se encontra limitada
a utilização das fontes. O ponto central do projeto biográfico é a importância de se analisar
uma experiência singular e situá-la no contexto social, isso torna tal gênero pautado em
complexidade. Para finalizar o autor propõe a utilização de três tipos de biografias: biografia
serial (prosopografia), a biografia reconstruída em contexto e biografia reconstruída a partir
de um texto (frequentemente utilizado na autobiografia).
O último artigo, intitulado “O fardo da memória”, é dedicado a discutir a experiência
histórica e a memória da França. Nele, Revel destaca três tipos de memórias. A primeira é a
comemoração. No final do século XX a França teria celebrado muitos fatos importantes do
passado francês (datas comemorativas). A segunda forma de memória é a patrimonialização a
questão da consciência com o patrimônio, que aconteceu tanto no campo ideológico como nas
construções de museus. A terceira forma é a produção da memória, a própria mudança na
escrita da história, o que antes era restito aos grandes homens passou estar vinculado às
memórias esquecidas, ou seja, historiadores e memorialistas começaram dar visibilidade às
narrativas da história “vista de baixo”. Para Revel essas três formas estão interligadas e
contribuem para se pensar a memória com relação à história francesa contemporânea
A proposta feita por Jacques Revel à luz de tais perspectivas centra-se em torno de
pensar a produção historiográfica na França, do século XX até a contemporaneidade. A partir
desse foco, o autor procurar mostrar em sua obra os movimentos e as transformações sofridas
no ambiente acadêmico, o hasteamento das disciplinas ao status de ciência, assim como a
influência dos Annales na “construção” do conhecimento histórico, através da renovação da
pesquisa histórica.
Em sua plenitude, o livro revela um enriquecedor conteúdo, propondo ao leitor
apontamentos e compreensão acerca das ciências sociais e suas contribuições no campo
historiográfico. O Revel procurou explanar sua proposta, mostrando ao longo dos nove artigos
a importância das ciências sociais e sua proximidade com a história.
1
Graduanda do Curso de Licenciatura Plena em História da Universidade Estadual do Piauí (UESPI), Campus Clóvis Moura. Vozes, Pretérito & Devir Ano I, Vol. I, Num.2 (2013) Resenhas ISSN: 2317-1979.
Resenha Apresentada na Revista Eletrônica Vozes, Pretérito e Devir.
Referência:
REVEL, Jacques. História e Historiografia: exercícios críticos. Curitiba: Ed UFPR, 2010.
Recebido: 07 de junho de 2013
Aprovado: 22 de agosto de 2013